27/02/2008
25/1/08 – Pastel de feira

Para compensar o tempo que me deixa sozinha em casa, o Digitador ocupa boa parte do fim de semana se divertindo comigo. Nos dias úteis, ele lê o jornal, toma café e já sai correndo para o banho e, depois, para o trabalho. No sábado e no domingo, a coisa é diferente. Depois do jornal e do café, ele se atira no chão da sala, e passamos um bom tempo brincando de brigar. Como o dia em que aconteceu a experiência abaixo era uma sexta-feira, estranhei o fato de ele não ter ido ao banho depois do café da manhã.

Em vez disso, brincou um pouco comigo na sala, pegou a minha coleira e saiu comigo para as ruas. Tinha muito mais cães do que durante os meus passeios habituais. Havia também muito mais humanos nas ruas, parques e padarias. Mais tarde descobri que estava vivendo o meu primeiro feriado na nova casa. O aniversário de São Paulo. Mas essa não foi a descoberta mais legal. Bacana mesmo foi conhecer a feira livre que fica a umas oito quadras de casa e que acontece nesse dia da semana.

Pra quem gosta de cheirar, aquilo é um prato cheio. Peixe, repolho, banana, ovo, tomate, não sabia para onde apontar o meu focinho. O Digitador não estava muito entusiasmado com aqueles aromas todos. Estava muito ocupado respondendo pacientemente as mesmas perguntas: “Que raça é essa?”, “Ele [grrrrrrr] cresce muito mais que isso?”, “Qual é a idade?”, “Você ganhou ou comprou?”. Por isso, acho que ele ficou contente quando, finalmente, apareceu uma menininha com um discurso diferente. “Tio, o senhor me dá essa cachorrinha?”. Ele deu uma risadinha e respondeu: “Não posso. O problema é que ela gosta muito de mim”. Tá se achando esse Digitador!

Quando estávamos chegando ao final da feira, fui conduzida até uma calçada. O Digitador apertou uma campainha e, passado meio minuto, uma porta se abriu e apareceu uma moça de calça de moleton cinza, camiseta branca e uma cara de quem saíra da cama havia pouco tempo. Fomos apresentadas: “Aide [pronuncia-se ‘Aidê’], esta é a Clê”. Ao perceber que o meu apelido e o nome dela rimavam e ao ver o sorriso da minha nova amiga, logo me simpatizei com ela. Depois dos paparicos de praxe, finalmente apareceu um cheiro que interessou ao Digitador. “Aide, vamos comer um pastel?”, disse ele.

Tenho de concordar, o cheiro da coisa é bom mesmo. Estou com vontade de matar a veterinária que determinou que eu só deveria comer ração. Enquanto os dois saboreavam pastéis sentados na sarjeta, eu passei a explorar bagaços de cana e guardanapos usados. Todas as vezes em que fui flagrada fazendo essa última coisa, recebia uma advertência com aquela voz tonitruante do Digitador. Acho que levei umas oito broncas dessas (ai, esse cara não cansa?). Depois, chegaram mais duas amigas, o que significou mais afagos, paparicos e, inevitável, as mesmas perguntas de dois parágrafos atrás.

O grupo ficou papeando alegremente por mais uma hora. Tava começando a ficar cansada, e o Digitador parece ter percebido. Voltamos pra casa, aninhei-me na minha caminha e o Digitador foi para o banho. Cerca de 20 minutos depois, ele voltou cheirosão e falou que iria ao cinema e que seria demorado, pois estava a fim de pegar uma sessão dupla. Estava cansada demais para fazer meus choramingos. Em vez disso, fiquei imaginando se o próximo aniversário de São Paulo iria demorar demais...

Um cheiro,
Clê
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26/02/2008
22/1/08 – Nas ruas é que me sinto bem

Cheguei a pensar que, como as duas plantas que o Digitador tem em casa, iria criar raízes dentro do nosso apê. Apesar de o espaço ser bem maior e melhor do que o da minha jaulinha na pet shop, já estava entediada de passar o dia todo descobrindo o que há sob o revestimento das cadeiras da cozinha, destruindo tapetes e retalhando páginas de jornal. E isso foi tudo o que fiz nessa terca-feira. Pelo menos até o fim do dia.

Quando a noite chegou, ouvi os passos pesados pelo corredor do andar onde a gente mora e me preparei. A porta se abriu, o Digitador entrou e dei a ele a recepção de praxe, com muita correria, mordiscadas e rabo abanando na velocidade do som. Por falar nesse nosso ritual, ele teve algumas alterações desde a minha chegada. Nos primeiros dias, o cara se atirava no chão comigo do jeito que tava. Agora, ele vai até o quarto para tirar a roupa de trabalho. E, claro, eu vou atrás. É divertido ver o Digitador tentando tirar a calça e as meias comigo pulando em cima dele. Dia desses, ele quase caiu.

Bom, mas nessa terça ele não se trocou. Em vez disso, foi até a área de serviço, pegou a minha coleira vermelha e começou a me puxar para fora do apê. Imediatamente, termômetros e agulhas começaram a povoar a minha imaginação. Por conta disso, fiquei parada no meio do corredor. Ele insistiu, continuou me puxando e acabei cedendo. Entramos no elevador e descemos num andar diferente daquele onde fica o carro. Saímos na recepção e passamos pela portaria. Um cara dentro da guarita virou para o Digitador e disse: “Então, vai levar o pitbull para passear?”. Minha vontade era a de dar uma bela mordida no sujeito, mas tava tão empolgada ao ver a rua a poucos metros de mim que deixei pra lá.

Depois de um “cléc”, o portão se abriu e partimos para a minha primeira exploração pela vizinhança. Minha nossa, quantos cheiros!!! Parei em todas as plantas, postes, sacos de lixo e fluidos que meus congêneres foram deixando ao longo do caminho. O Digitador parecia meio apressado, pois, bastava eu ficar mais de dez segundos investigando alguma coisa, para que ele desse uma puxadinha na minha coleira.

Logo ao sair de casa, vi um cachorro muito parecido comigo. O Digitador e a mulher que conduzia o outro cão começaram a conversar. De repente, o cara que divide o apê comigo começou a rir loucamente. É que ele havia acabado de ouvir o nome do bicho: Marcel Duchamp. Depois, ele disse meu nome para a mulher, que passou a gargalhar também. “Tá rindo de quê?”, pensei.

Retomamos nossa caminhada. Tudo parecia muito fácil. Era só seguir adiante e parar no que me interessava. O problema era atravessar a rua. Se em todo o resto do trajeto o Digitador era relativamente paciente comigo, nesses instantes não tinha negociação. Com vigor, ele me puxava para a calçada seguinte. Logo eu fiquei esperta e passei a me antecipar aos puxões dele.

Andamos por cerca de uma hora e passamos na casa da Mariana (uma amiga de trabalho do Digitador), onde fui devidamente paparicada. Depois de virar uma esquina, reencontrei o portão do nosso prédio. Ao chegar ali, ouvi outro “cléc”. O portão se abriu. Não tive dúvida: fiquei estatelada no chão, com as minhas garrinhas presas ao calçamento. Queria mais e não tinha certeza de que aquilo iria se repetir. Meus esforços pouco adiantaram. Fui puxada para dentro de casa.

No final das contas, me senti obrigada a concordar com o Digitador (detesto quando isso acontece!). A foto abaixo dá a certeza de que, depois desse passeio, eu não iria agüentar muito mais tempo na rua.

Uma lambida,
Clê

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23/02/2008
19/1/08 – O fim da picada?

Estou me sentindo meio pesada. Tenho passado dias e noites aqui dentro desse apartamento, brincando umas duas horas por dia com o Digitador e passando o resto do tempo dormindo ou destroçando tapetes e a capa das cadeiras da cozinha (adooooro!). Mas isso não tem sido suficiente para queimar todas as calorias que a minha ração é capaz de gerar.
Com meu olhar mais sedutor, tento convencer o cara a dar umas voltas comigo pelo bairro. Ele pegou a mensagem e veio com uma desculpinha marota para me manter longe do movimento e do ar fresco: “Falta só uma vacina, bebê. Güenta mais um pouco”, disse ele. A promessa era que, três dias depois dessa tal vacina, eu podia sair por aí cheirando e vendo o mundo. Bom, se não tem jeito, vamos então enfrentar de novo aquelas moças de jaleco branco, aquelas agulhas inconvenientes e, pior de tudo, aqueles termômetros invasivos.
E esse dia chegou. Era um sábado de manhã e tudo foi diferente. Depois de ler o jornal (acho que ele faz isso só para me irritar, pois como pode ser importante algo que depois vira o meu banheiro?) e tomar uma caneca gigante de café com leite, o Digitador pegou um pedaço comprido de náilon que parecia algum instrumento para práticas sadomasoquistas. Sem saber do que se tratava, resisti, mas o cara é muito mais forte que eu e me colocou aquela coisa.
Depois, descemos ao estacionamento do prédio e matei saudade do carro que me trouxe até a nova casa. Rapidinho estávamos num tal de Hospital Veterinário Pompéia. O lugar estava impregnado com cheiro de cachorro. Fiquei emocionada. Tanto que, logo na recepção, deixei escapar um xixizinho (ainda bem que a minha cara é preta. Assim, escondo o meu rubor quando conto essas coisas). Vieram três moças vestidas com jalecos e me levaram para uma balança. E os meus receios se confirmaram. Estava com 4,15 quilos, 900 gramas a mais do que tinha antes de mudar. Virei para a cara do Digitador e disse com o olhar: “Tá vendo o que você fez comigo?”. Passada a minha ira, fui carregada até uma mesa de metal igual à que havia na minha casa original. Pensei: “Xiii, lá vem coisa”. E não deu outra: picadas, termômetro e, inédito, um comprimido desagradável que me fizeram engolir.
Para me distrair, as moças fizeram vozes em falsete parecidas com aquelas que ouvia na pet shop. Despediram-se de mim e, enquanto o digitador passava um cartão numa máquina, fiquei olhando um husky siberiano macho que se preparava para passar pelo mesmo martírio que eu. Quase pedi para o Digitador voltar para a salinha só para eu conferir a cara do coitado na hora do termômetro. Mas eu tava ficando meio sonada, e tudo o que queria era a minha caminha.
Dá vontade de dormir pelos próximos dois dias e só acordar quando já puder dar as minhas voltas pelo bairro.

Uma bocejadinha,
Clê
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14/02/2008
15/1/08 – Carne nova no pedaço



A impressão de que o Digitador era um ermitão começou a se dissipar de vez numa terça-feira. Notei que ele havia chegado em casa mais cedo do que o habitual. E brincou comigo por menos tempo que de costume. Quando ele resolveu suspender as nossas atividades (corridinhas, mordiscadas e roladas pelo chão), fiz a minha carinha de súplica e fiquei feito sombra no pé dele. De nada adiantou. O Digitador disse que iríamos receber visitas e que ele precisava preparar algo.
Ao saber disso, fui tomada por vários pensamentos. O primeiro deles foi óbvio: “A quem esse cara quer enganar?”. Os outros foram mais sutis e me deixaram dividida. Meu sentimento inicial foi de dó das pessoas que iriam provar uma iguaria feita pelo cara. Logo depois, fiquei preocupada e preparada para uma guerra. Afinal, por pior que estivesse a comida, da minha ração ninguém chega perto!
Meia hora depois, toca a campainha do nosso apê. Eram duas mulheres, mãe e filha. Os nomes delas, soube mais tarde, são Danielle e Bianca, respectivamente. Esta última, depois de um brevíssimo “olá”, já entrou na sala e começou a rolar comigo no chão. Foi tudo tão rápido que deixei para cheirar a mãe mais tarde. Nunca tinha visto aquela gente na vida, mas, como vi que elas gostavam do Digitador, pensei: “Xi, essas aí gostam de qualquer um”. (Tô meio sarcástica hoje, né? Acho que é pelo fato de eu estar ditando este texto depois de ter passado nove horas sozinha em casa. Daqui a pouco passa.)
Ai, que ótimo encontrar pessoas com novas brincadeiras. E adoro colos diferentes. Por falar nisso, eis uma coisa da qual não posso me queixar: até agora não conheci colo mais aconchegante que o do Digitador. (Não falei que passava rápido.)
Esse foi um dia histórico em casa, pois, correndo pra lá e pra cá atrás da Bianca, aprendi que conseguia subir sozinha no sofá da sala. Bastava apenas vir no embalo e saltar um pouco antes. Durante alguns dias, essa foi a minha brincadeira predileta.
Apesar de a visita ter sido uma delícia, foi absolutamente extenuante. Foram três horas de correrias, saltos e perseguições. Quando chegou o momento de as visitas partirem, o Digitador me pegou no colo – “Ela ainda não pode pisar no chão”, justificava ele – e acompanhou mãe e filha até o carro.
Voltamos para dentro do apê, e eu estava acabada. O Digitador sentou numa poltrona, esticou as pernas sobre um pufe e me colocou no colo, enquanto lia uma revista. Passados 15 minutos, fui tomada por um sono profundo, de respiração longa e – o meu datilógrafo pediu para eu dizer o que segue – com roncos. Sim, eu ronco, e daí?
Num ato covarde, o cara aproveitou o meu estado e me levou, de caminha e tudo, para a área de serviço. Eu tava sem forças até para chorar. Engrenei o sono ali mesmo. Jamais poderia imaginar que aquilo significava meu adeus eterno ao cantinho que ocupava ao pé da cama do Digitador.

Um ronquinho,
Clê
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14/02/2008
14/1/08 – Um dia de cão

Tem gente que não sabe mesmo dividir apartamento, viu? Esse é o caso do Digitador. Como já estávamos morando juntos havia cinco dias e nenhuma outra alma havia entrado no nosso apê, imaginei que tinha dado o azar de estar condenada a passar os meus dias ao lado de um ser solitário, que iria tentar curar todas as carências comigo. Deus me livre!
Tudo começou a mudar na minha primeira segunda-feira na nova casa. Por volta das 8h30, eu estava deitada no meu espaço ao pé da cama do Digitador, que já tinha dado uma olhada pra mim, mas relutava em levantar para brincar. Foi quando eu ouvi um barulho na porta da sala. Prontamente me pus de pé e levantei as orelhas. A porta da sala abriu, sem que o invasor se revelasse. Senti que ele havia entrado na nossa cozinha.
Saltei da minha caminha e comecei a latir. Em vez de me imitar, o Digitador começou a rir. Olhei incrédula para ele. Como é que pode, alguém invade a casa e o cara dá risada? Será que as responsabilidades pela segurança desse pardieiro vão recair todas sobre mim?
Finalmente, ele se levantou. Fui na frente dele até a cozinha e vi pela primeira vez uma mulher mulata, baixinha e que já deve ter passado há muito tempo dos 50 anos. Fomos apresentadas: “Nininha, essa é a Clementina. Clementina, essa é a Nininha”. Até que é educadinho o Digitador, né não? Ao me ver, a Nininha perguntou para o cara: “É bravo?”. Tomei aquilo como uma ofensa. Como alguém pode errar meu sexo e a minha índole em apenas duas palavras? Ao saber as informações corretas, ela se abaixou – sem muito esforço – e começou a me acariciar. Fora de si, meu rabo começou a balançar. E aí aparece um traço do meu caráter que você já deve ter notado: sim, sou facinha.
Logo vi que aquela mulher é a responsável por evitar que a casa vire um cenário de bomba atômica, dominado por revistas, livros e discos de vinil desarrumados. Gostei de ter a companhia da Nininha ao longo do dia. Além do cheiro de alisante para passar roupas, minhas segundas-feiras ganharam alguém que, de vez em quando, me dirige uma palavra de carinho. E como notei que a mulher gosta de limpeza, mantenho o meu intestino e a minha bexiga sob o mais rigoroso controle.

Um cheiro,
Clê
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14/02/2008
11/1/08 – Lei do ventre livre

Estou longe de ser uma daquelas fêmeas que prometem e não cumprem. Como no meu primeiro post eu havia dito que contaria algumas das estripulias que protagonizei na minha estréia na casa nova, relato aqui uma delas.

Adoro a ração que me vem sendo servida desde a pet shop dos meus primeiros meses. Ela deixa os meus pêlos brilhantes, me mantém disposta e tem um cheiro que, percebo, ativa as glândulas salivares do Digitador. Apesar disso, pelo menos diante de mim, ele jamais se atreveu a experimentar o meu almoço.

Pois bem , o efeito colateral da minha ração é que ela é rica em fibras. Resultado: duas vezes por dia, eu me alivio da carga extra (não me peça para ser explícita). Já no primeiro dia na casa nova, eu havia deixado uma carguinha dessa no chão da sala. O Digitador fez que não viu e continuou brincando comigo. Mas depois notei que o montinho tinha sumido sem deixar rastros. Em vez disso, havia apenas um forte odor de citronela no ar.

No segundo dia, porém, o cara não deixou barato. Ao ver o resultado da minha digestão no piso da cozinha, ele me pegou no colo com certa violência, levou o meu nariz até perto do montinho, começou a berrar “aqui não” e me levou até os jornais da área de serviço. Ainda gritando, apontava o dedo para aquele monte de notícia velha. Grosso!

Não entendi nada e continuei me aliviando pelos cantos da casa pelos próximos dois dias. E o roteiro do parágrafo anterior se repetia. Eu pensava comigo: “Pô, pra que tanto estresse? É sequinho, superfácil de limpar”. Lá pela quinta vez, ele colocou a carona dele bem perto da minha e vociferou (perdoem o linguajar do sujeito): “Se você pensa que eu vou entrar na velhice limpando cocô de cachorro, está muito enganada”.

Para evitar a repetição dessa cena patética, passei a fazer tudo em cima do jornal. Uma pena, pois tive de abandonar o hábito de picotar as páginas, que, por conta das minhas necessidades, ficou completamente desagradável.

Uma abanada de rabo,
Clê
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13/02/2008
10/1/08 – Madrugada do cão

Só para concluir o relato do primeiro dia na casa nova, informo que dei trabalho. Bem depois da meia-noite, o Digitador me colocou numa caminha com cheiro de nova (quer dizer, não tão nova assim, pois deixei escapar um xixizinho nela) e começou um ritual de despedida. Acariciou minha cabeça, fez várias juras de amor eterno, me deu as costas e fechou a porta da cozinha.

Vi aquilo e pensei: “Como assim? O cara me deixa o dia inteiro sozinha, fala um monte de coisa bonitinha e agora vai dormir?”. Passei a choramingar baixinho inicialmente. Durante cinco minutos, nada aconteceu. Resolvi aumentar o volume do meu lamento e, sem muita demora, a porta da cozinha foi reaberta. Bem como eu imaginava, os machos não resistem ao choro de uma fêmea.

Deu pra ver na cara do Digitador que ele estava apenas simulando braveza. Pegou minha caminha e meus brinquedos e levou para o quarto. Fui atrás. Ele me deitou na caminha e desabou em outra bem maior. Por que eu tinha de ficar na menor? Com ele já deitado, passei um tempo em pé, perto da cabeça dele, tentando convencê-lo a me deixar subir. Só que desta vez decidi não abusar. Com o rabo entre as pernas fui para o meu cantinho, comemorando a minha primeira vitória e a descoberta de como driblar a resistência do cara que divide o apartamento comigo. Dormi feliz.

Uma fungada,
Clê
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12/02/2008
9/1/08 - Liberdade, ainda que tardia



Meu primeiro dia
na nova casa,
com um disco da
cantora que inspirou
meu nome

Eu achava que era feliz. Repartia uma jaula de metal apertadíssima com o meu irmão, que é bem maior que eu. A gente brincava o dia todo, dentro das limitações que aquele espaço permitia. Nossos passatempos prediletos eram trocar mordiscadas e picotar o jornal que colocavam sob as nossas patas. Outra coisa que nos mantinha animados era o desfile de gente que fazia caretas infantis e ficava dizendo "ai, que lindos" em falsete. Ração da boa e água fresca nunca faltaram.

Era divertido, mas, pra falar a verdade, tava ficando meio monótono. Os dias iam se sucedendo, e a rotina era mais ou menos assim: a gente acordava na pet shop, vinha uma mulatinha colocar comida e água, devorávamos tudo trocando cabeçadas e, depois, passávamos o resto do dia ouvindo os pios dos pássaros e as pessoas falando em falsete. De quando em vez, aparecia uma mestiça de traços nipônicos e roupa branca para dar uma olhada na gente. Achava legal pela quebra da monotonia, mas, toda vez que essa moça aparecia, ela tirava do bolso do avental um termômetro. Se você não sabe como é tirada a temperatura de um cãozinho, nem queira imaginar. E o pior é que a mestiça fazia isso na frente de todo mundo. Mas isso não era suficientemente degradante para alterar o meu humor.

E a vida caminhava assim, às mil maravilhas, quando naquela manhã tudo mudou. Para começar, me tiraram da jaula e deixaram meu irmão lá dentro. Tomei um belo de um banho - meu irmão tava precisando disso mais que eu -, fui secada, me passaram talquinho e, mais uma vez, parei atrás das grades. Só que, desta vez, sozinha. Nem deu tempo para ficar muito triste. Ainda era manhã quando, pela primeira vez, vi o Digitador, o cara que datilografa as minhas idéias neste blog.

Ele começou mal. Ao entrar na pet shop e ver um pug na jaula, foi logo abrindo o cárcere e pegando o bicho, que estava com um cheiro forte. Só depois de muitos abraços e brincadeiras, ele foi salvo pela mulatinha que me dava comida. Ela foi até o digitador e explicou que aquele pug, na verdade, era meu irmão. Como é que um sujeito pode cometer um erro tão elementar?

Bom, fui retirada da gaiola e, antes de chegar ao colo dele, passei pelo da Fernanda, uma amiga veterinária do Digitador. Foi ela quem me descobriu. Sem muita demora, fui repassada finalmente ao colo do Digitador, que não sabia muito bem o que fazer comigo. Falou coisas em falsete - o que fica ridículo na voz dele -, exalou aquele cheiro do meu irmão e ficou me segurando de uma maneira que ficamos cara a cara. Quando eu já tava a ponto de dizer: "O que foi, meu, nunca viu não?", a mesticinha me pegou, deu mais uma daquelas agulhadas e me liberou. Depois de o Digitador fazer um cheque (não me pergunte de quanto) e se despedir da amiga veterinária, fui colocada numa caixa de papelão no soalho de um carro. Com alguns brinquedos e um ossinho falso (pensa que eu não sei?) fiz o trajeto da Mooca até as Perdizes.

Chegamos ao lugar que, hoje reconheço, é o meu lar. Bem mais espaçoso que a jaulinha que dividia com o meu irmão. Fiz um reconhecimento básico e pensei que iria passar o dia brincando com o Digitador - ok, ele é beeem maior que meu irmão, mas acho que dá para trocarmos umas mordiscadas. Mas, de repente, ele pegou uma bolsa, começou a falar algumas coisas sobre trabalho e dinheiro para a ração e me trancou do lado de dentro do apê. Pronto, cá estou eu sozinha de novo, pensei. Em vez de ficar amuada, dei início a um trabalho de exploração que me manteve entretida pelas cerca de nove horas que separaram a partida e a chegada do Digitador.

Ao longo dos próximos posts, vou informando tudo o que aprontei naquele dia. O importante agora é dizer que, quando o cara chegou, fiz a maior festa. E ele reagiu bem. Rolamos no chão da sala, dei mordiscadas nele (fiquei desapontada ao ver que ele não retribuía com a mesma moeda), corri e me acabei de brincar. Exausta, repousei no colo dele, que estava lendo um livro sobre um tal de Tim Maia. Dormi e fui colocada na minha caminha. E assim terminou o meu primeiro dia na casa nova.

Quer dizer, não foi bem assim que terminou, mas vou parar por aqui porque sei que você não tem muito tempo para ler tudo de uma vez. Aliás, prometo ser menos prolixa nos próximos posts, beleza?

Uma lambida,

Clê

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Não tenho nada a ver com a escolha do meu nome, mas poderia ter sido pior. Minha mãe se chama Shakira Son of Man, e meu pai, Tedy de Larissa Bright. É mole? Bom, vamos aos fatos: sou uma cadelinha da raça pug, superbrincalhona e (modéstia às favas) simpática. Nasci no dia 12 de setembro de 2007. Entre essa data e 9 de janeiro de 2008 - dia em que passei a dividir apê com um cara que pensa que é meu dono e que digita as minhas idéias -, pouca coisa aconteceu. Por isso, conto a minha vida a partir de então. Antes de começar, um aviso (especialmente dirigido ao cara acima, que passo a chamar de Digitador): eu não estou aqui para curar a carência de ninguém. Como diz a letra do único funk carioca que presta, o que eu quero é ser feliz!

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12/02/2008 - 27/02/2008
 
- Blog da Galileu