29/02/2008
26/1/08 – Será a Benedito? (parte 1)

Adoro sábados. Isso apesar de eles começarem tediosos. Geralmente, acordo e espero o Digitador levantar, usar o banheiro, tomar café e ler o jornal. Terminado esse ritual que dá nos meus nervos, rolamos pelo chão da sala por muito mais tempo que o habitual. Nesse sábado, quando eu já estava começando a ficar cansada disso, o cara levantou, foi até a área de serviço e voltou com um frasco na mão. Olhou pra mim e disse: “Vem, bebê, vem?”.

Mesmo intuindo que não vinha coisa boa por aí, fui atrás dele. Entramos no banheiro. Ele abriu o registro do chuveiro. Estranhei o fato de ele ainda estar de roupa. Em vez de se livrar dela, me pegou no colo, abriu a cortina e entrou comigo dentro do box. Logo senti o jato de água morna (mas não o suficiente) e pensei em bronquear, mas o Digitador me segurava com tanta firmeza que cataloguei a experiência na gavetinha dos males necessários.

Depois que eu estava completamente ensopada, o conteúdo do frasco se revelou: uma coisa branca, espumante e com cheiro bom. O cara esfregou aquilo em mim, sem deixar nenhuma parte impune. Fiquei parecendo um poodle. Um jato de água me livrou daquela espuma toda. Foi um alívio, mas que não durou muito, pois a operação foi repetida. Saí dali tremendo. Ainda bem que fui enrolada em uma toalha fofa. E foi assim, comigo semimumificada, que o Digitador sentou no chão do banheiro e ficou me enxugando com a toalha. Gostei disso.

Quando ele me soltou, fiquei andando pela casa e me sacudia a cada meio minuto. Num dos quartos, descobri um raio de sol e me deitei sob ele. Não deu para curtir aquela sensação gostosa por muito tempo, pois logo o cara apareceu com a minha coleira vermelha e falou a frase mágica: “Vamos passear?”. Quando ouço isso, meu rabo escapa do controle. Fui levada até o carro e colocada na minha caixinha forrada com o ex-tapete da cozinha (a primeira coisa que destruí na casa nova). Rodamos por uns 15 minutos e logo chegamos a um lugar cheio de gente (e cães), parecido com a feira do post anterior e com um povo muito bonito. Ah, aí então entendi o porquê do banho: acho que o Digitador tinha medo de que o meu cheirinho pudesse destoar daquele ambiente.

Estávamos na Praça Benedito Calixto, que abriga uma feira de antiguidades aos sábados. Alguns cheiros lembravam os da feira livre. Tinha até aquele de pastel. Mas o mais legal eram as pessoas dali. Fui paparicada como uma princesa. Me pegaram no colo, me elogiaram, quiseram tirar fotos comigo. Com cara de orgulho, o Digitador ia dando pequenas entrevistas ao longo do caminho. E juntamos muitas histórias em pouquíssimo tempo.

Uma dona de barraca chamou o Digitador num canto e disse: “Meu filho, coloque uma figa ou alguma outra coisa do gênero nessa cachorra. Ela chama muito a atenção!”. Ele respondeu que o meu santo era forte e que a minha coleira já era vermelha. Em outro momento, três meninas canadenses pediram para tirar foto comigo. Com a ajuda do Digitador, reproduzo o diálogo: “May we take a picture with your dog?”, disse uma das moças. “What about the owner?”, perguntou ele. Sem falar mais nada, a moça deu uma risadinha breve, me pegou no colo, tirou duas fotos, me devolveu ao Digitador e, com um brevíssimo “bye”, nos deu as costas. Olhei para a cara do sujeito e pensei: “Aêêê, hein? Se ferrou!”.

Bom, mas o nosso passeio continuou e começaram a aparecer amigos do Digitador. Primeiro foram a Fernanda (que trabalha com ele) e o Miura (marido dela). Depois, fizemos amizade com um pessoal que mora na Granja Viana. Prometo que falo mais sobre essas pessoas no meu próximo post. E a culpa disso é toda do Digitador. Dá para acreditar que o cara esqueceu de levar a máquina fotográfica no meu primeiro passeio pela Benedito? Mas no sábado seguinte ela estava lá, e essas pessoas também. Então agüente um pouquinho que vou dar (e mostrar) mais detalhes daquele que acabou se tornando o meu programa predileto na cidade.

Uma rosnadinha (pelo esquecimento do Digitador),
Clê
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03/03/2008
2/2/08 - Será a Benedito? (parte 2)









Como você vê acima, a coisa é bem melhor quando o Digitador não esquece a câmera em casa. Fica mais fácil contar as minhas histórias e permite saber com antecedência o tipo de passeio iremos fazer. Quando ele pega câmera, significa que vou interagir com outras pessoas e, quiçá, cães. Sem ela, já sei que vamos partir para novas caminhadas pelo bairro. Como toda boa libriana, adoro esse tipo de organização.

No sábado em questão, a câmera foi para o interior da bolsa, junto com a minha garrafa d’água, uns biscoitinhos e várias sacolinhas de supermercado (caso o meu intestino resolva se manifestar). Nossa segunda visita à feirinha da Benedito foi muito melhor que a primeira. Pra começar, aquela miríade de pernas e pés já não me assustava mais. Depois, como logo encontramos os primeiros amigos, não fiquei um tempão parada, observando o Digitador caçar discos de vinil.

Logo que descemos do carro, o celular do cara tocou. Era a Lilyan (a metade feminina daquele casal da Granja, citado no post anterior) dizendo que já estava na praça. Passamos a procurá-los meio apressadamente, o que me deixou contrariada, pois sobrou pouco tempo para os paparicos que recebo ao longo do caminho e que tanto bem fazem à minha auto-estima.

Foi muito legal ter reencontrado o Johnny, o labrador imenso do casal. Adoro brincar com ele, embora o moço fique irritado quando cheiro algumas de suas partes. Numa das rosnadas que ele deu pra mim, ouvi o Digitador dizendo para o casal: “Acho que ela é nova demais para entender essas coisas”. Confesso que não consegui decifrar a observação, mas vamos em frente.

Com o casal e o Johnny havia uma outra mulher, a Sofia. Ela estava toda de branco, e não demorou muito para que várias marcas das minhas patas ficassem estampadas na roupa dela. Juntos, fomos todos a um bar na beira da praça. Enquanto os humanos tomavam cerveja em pé, eu me divertia irritando o Johnny e brincando com um monte de gente que passava. Gostei especialmente de um garoto de pouco mais de um ano. Vestido com um macacão, ele mal andava. Quase derrubei o menino no chão umas duas vezes.

De repente, a Lilyan sussurrou ao ouvido do Digitador: “Olha, ali sentado. É o pão que faz pão”. Ela se referia a um tal de Olivier Anquier, que estava pagando a conta. Ocupamos a mesa em que ele estava. E começou a chegar gente. Primeiro, foi mais uma amiga do casal (o Digitador não lembra o nome dela; perdoem mais essa falha dele). Depois, vieram a Fernanda e o Miura, acompanhados da cadela Luka. Tentei brincar várias vezes, mas ela não me dá muita bola. Vou continuar insistindo, pois acho que isso se deve a uma timidez da parte dela.

Quando estava todo mundo sentado à mesa, uma moça modernete pediu para brincar comigo. Orgulhoso, o Digitador me colocou no colo da moça. Depois de muitas brincadeirinhas, ela me colocou dentro de uma bolsa grandona. Submergi ali. Foi quando o engraçadinho com quem divido apartamento veio com mais uma das suas tiradas. “Preciso instalar uma câmera nessa cachorra”, disse ele. A moça riu.

Depois, chegaram o Mauro e a Ju, ambos jornalistas. Como a Fernanda, ela trabalha com o Digitador na revista Galileu. Pensei: “Ai, que saco, reunião de jornalistas”. Mas foi um alívio notar que eles não conversaram só sobre pautas, furos e fechamentos. Em vez disso, fui o principal assunto no começo das discussões. Além disso, outra coisa que me deixou muito feliz é que passei a tarde migrando de colo em colo.

Quando a noite já caía, apareceram a Regina (amiga do Digitador) com seu filho, Caio. Ufa, até que enfim uma criança na mesa. Os pequenos são muito mais criativos na hora de brincar. O problema é que eles acabam com o meu fôlego.

E foi exatamente isso que aconteceu. Quando já passava das dez da noite, a Ju me pegou no colo. Não tive dúvida: apaguei. Fui acordada pelo Digitador uma hora depois e levada ao carro e de volta para a casa. Dormi feito um anjo. E sonhei com mais um dia como esse.

Um (longo) bocejo,
Clê
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04/03/2008
16/2/08 – Dando um tempo



Ebaaaa, outro sábado. E esse começou como os demais: jornal, café e rolação na sala. Logo o Digitador se levantou, pegou a minha coleira e descemos para o estacionamento. Pensei que iríamos de novo para a Benedito, mas o carro foi na direção daquele hospital veterinário. Com a imagem de seringas e termômetros na cabeça, deixei escapar um novo xixizinho na recepção. O legal é que, ali, ninguém fica brava quando isso acontece comigo. Se fosse em casa...

Fomos atendidos pela doutora Analice (pelo jeito, vou ver muito essa mulher; por isso já decorei o nome dela), o mesmo ser sádico que me perfurou da vez anterior. E teve início o mesmo ritual: peso (só 30 gramas a mais; tenho pegado leve na ração), termômetro (ui) e picada (a doutora jurou que outra dessa só no ano que vem). Terminado o processo, achei que iríamos nos divertir na rua. Mas o Digitador me deixou ali, dentro de uma gaiolinha. Disse que voltaria depois do meu banho.

Passados alguns minutos, um moreno forte veio e me tirou da jaula. Foi carinhoso e brincalhão. Relaxei. Ele me lavou com uma água quentinha e fazia massagens bem melhores do que as que recebi no meu primeiro banho caseiro. A única coisa que me irritou um pouco foi aquele equipamento gerador de um vento fortíssimo que o sujeito apontou pra mim. Parecia que eu iria sair voando de dentro do lugar. Fui devolvida bem sequinha à gaiola, o que me poupou dos abanos obrigatórios quando quem me dá banho é um amador.

Era a primeira vez que o Digitador me deixava longe de casa e nas mãos de estranhos. Quando ele chegou, me dirigiu um olhar fraterno e ficou dizendo: “Eu nunca vou te abandonar, bebê”. Pensei comigo: “Tá com dor na consciência, né?”. Passado esse pequeno melodrama, ele me pegou e levou de volta ao carro. Ebaaa, finalmente hora de voltar para as ruas.

Notei que o trajeto foi mais longo do que eu imaginava. Ficamos cerca de uma hora no carro. De quando em vez, o Digitador se voltava para trás e dizia: “Estamos quase chegando à casa da minha irmã”. Não me entusiasmei. Dentro da minha caixinha, eu alternava momentos em que apreciava a paisagem com outros de sonecas profundas.

Chegamos ao local – no ABC paulista, informa o Digitador. Fomos recebidos por uma mulher com a cara do motorista que me trouxe até aqui. Já vi outros pugs muito parecidos comigo e achei que o mesmo poderia acontecer entre os humanos. A recepção que ela nos deu foi calorosíssima. Me pegou no colo e ficou tentando imitar a voz e as brincadeiras que o Digitador faz comigo.

Depois, fui apresentada aos cães da casa: o Polan e a Bellinha, ambos vira-latas de grife, se é que você me entende. Rolou um estresse no começo, principalmente entre mim e o macho da casa. Ele também não tem muita paciência ao ser cheirado em determinadas partes. Passado isso, começamos a desfilar em trio pela casa toda. Era tudo muito maior que meu apartamento.

Passadas duas horas, o Digitador se despediu de mim de uma maneira diferente, mais triste e demorada que a habitual. Achei meio desnecessária aquela pompa toda, pois imaginei que, como no hospital veterinário, ele iria dar um passeio e logo estaria de volta. Ilusão minha. A noite veio, o fôlego foi acabando e nada de o cara aparecer. Ao notar a minha angústia, a Doris (esse é o nome da irmã dele) disse que o cara tinha ido viajar.

Pô, mas e aquele papo de que ele nunca iria me abandonar...


Sniff,
Clê
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06/03/2008
21/2/08 – Bichos soltos

Começo esse post com um pedido preventivo de desculpas. O negócio é o seguinte: como apenas emito as idéias que são transcritas pelo Digitador, não tenho certeza de que elas chegam na plenitude até você, meu(inha) caro(a) leitor(a). Durante a minha semana longe do cara, a coisa ficou ainda pior, pois o depoimento que segue resulta de coisas que a Doris (irmã), a Alexandra (sobrinha) e a Maria (empregada) disseram ao Digitador. Assim, caso alguma idéia pareça distorcida ou despropositada, creditem isso a possíveis imprecisões desse povo. Afinal, errar não é canino!

E chega de blablablá e vamos ao que interessa.

Como os dias iam passando e nada de o Digitador voltar, resolvi desencanar e tirar proveito daquela situação. Não foi difícil. Estava numa casa com quintal grande, brincando com dois outros cachorros e sem ter de seguir uma disciplina rígida. Para quem já assistiu ao filme “A Noviça Rebelde” (um dos prediletos do Digitador), a minha impressão era a de que estava deixando o jugo do capitão Von Trapp e caindo nas mãos da irmã Maria.

Não tinha mais aquela coisa de ter de mirar em cima do jornal, minha presença era permitida em todos os departamentos da casa a qualquer horário, comia a ração que me desse na telha e, incrível, a Alexandra me levava todos os dias para dormir com ela na cama. Este último aspecto durou até o meu quinto dia por ali. Isso porque deixei escapar um xixizinho na cama da sobrinha do Digitador (depois, fiquei chateada ao saber que essa mulherada dedo-duro contou tudo pra ele; tem coisas que o cara não precisa saber).

Bom, mesmo dormindo junto com os meus priminhos nas nossas caminhas para cães, a semana continuou divertida, principalmente por causa dos outros cães. O Polan é um lorde. Pinto e bordo em cima dele sem que o moço solte nem um rosnado sequer. De vez em quando, a Doris falava: “Pode pular nele, Clê. É castrado”. Não entendi o que isso queria dizer. Com a Bellinha, eventualmente rolava um estresse. Ela se sente dona do pedaço, e eu estava lá justamente para questionar isso. Não deu outra: se tivéssemos mãos, com certeza puxaríamos os cabelos e nos beliscaríamos reciprocamente. Mas isso estava longe de ser a regra. Na maior parte do tempo, brincávamos como se não houvesse amanhã.

Por falar em amanhã, a cada novo dia, um sentimento estranho tomava conta de mim. Mesmo com toda a diversão, um aperto difícil de diagnosticar contraía meu peito. Descobri o que era numa manhã. Como a máquina de lavar roupa do Digitador é pequena, ele levou um edredon para ser lavado pela Maria na máquina da Doris, que é tamanho família. Antes de colocar a peça para lavar, a empregada deixou o edredon no chão. Rodei em volta dele e logo senti aquele cheiro familiar.

Fiquei deitada sobre aquele pano gigante por um tempão, curtindo os restos que o Digitador havia depositado ali. A Maria entendeu e não me pressionou para que eu saísse de cima. Voltei a brincar com meus priminhos na certeza de que poderia revisitar o edredon na hora em que bem entendesse. Mas, quando resolvi fazer isso, a peça já estava pendurada no varal, sem o cheiro do cara. Em vez disso, um forte aroma de amaciante dominava aquela e as demais roupas no varal.

Apesar de a minha raça ter origem asiática, em termos de temperamento eu sou uma latina incorrigível. Vivo todas as experiências no limite da emoção, o que às vezes provoca dor. Mas fazer o quê? Não sei agir de outra maneira. Bom, mas chega de rodeios. Eu estava com saudade do Digitador. E jamais pensei que ela pudesse doer tanto.

Beijo,
Clê
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07/03/2008
24/2/08 – Quem é vivo morre, hein?

O domingo estava chuvoso. E, quando chove, o quintal fica desagradavelmente úmido na casa da irmã do Digitador. Eu e meus “priminhos” não nos intimidamos com isso, mas pagamos um preço. Eu fico ensopada e, reconheço, meu cheiro não é o mais legal depois que brinco na água. Mas poderia ser pior. A Bellinha, que é uma bola de pêlo, se transforma em uma esponja de lavar carro. E, como o próprio aroma deve incomodá-la, ela se esfrega na gente com mais freqüência, como se quisesse compartilhar aquilo que é popularmente conhecido como “cheiro de cachorro molhado”.

Estávamos nós três sozinhos em casa. A Doris tinha ido trabalhar, e a Alexandra estava em um curso. Quando parecia que o melhor que me restava era rolar no quintal molhado, ouvi um barulho familiar de carro parando na porta da casa. Na companhia inseparável do Polan e da Bellinha, fui até o portão conferir o que estava acontecendo. Foi quando, de dentro do carro, saltou o Digitador. E já foi logo berrando: “MEU BEBÊ!!!”.

Ele estava com a chave da casa e foi entrando. Não consigo diagnosticar se eu estava com raiva dele ou se o que rolava era o medo de uma nova separação de uma semana. Só sei que a minha recepção foi bem menos festiva do que aquelas que eu proporcionava diariamente. Notei que, apesar da gritaria, ele estava me olhando de um jeito diferente. Mesmo assim, rolaram as brincadeiras de praxe, e fiquei pulando na perna dele enquanto as minhas coisas eram recolhidas.

Antes de entrar no carro, ele me levou até o espelho retrovisor e comentou: “Clê, você está muito mudada”. Tive de concordar. Uma semana sem os nossos passeios – somada a uma ração que não era a minha – me desfigurou. Vi ali refletida uma pug gorda e relaxada. Passado o susto, fui colocada na minha caixinha dentro do carro, e ela pareceu bem menor do que quando eu fui trazida para cá.

Como há uma semana, o trajeto de volta durou cerca de uma hora. Vim pensando em começar uma dieta e em fazer mais caminhadas pelo bairro. E jurei para mim mesma que iria passar um bom tempo sem olhar para um espelho novamente.

Quando o carro parou, pensei que iria voltar para o meu cantinho, para a minha ração equilibrada e, principalmente, para o meu peso. Mas, ao sair do veículo, não reconheci o prédio. O Digitador apertou um botão e falou com uma voz que saía da parede. Um portão se abriu. Subimos dois lances de escada e entramos no apartamento de uma moça que, apesar da aparente falta de tato com cães, me recebeu muito bem.

Vasculhei minha memória olfativa e não achei nenhum registro daquela mulher jovem, bonita e de estatura mignon. E jamais podia imaginar o quanto, a partir desse dia, ela seria freqüente na minha vida.

Com a pulga atrás da orelha,
Clê
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10/03/2008
1/3/08 – A partilha

Confesso, sou possessiva. Já me incomoda o fato de eu ter de dividir apartamento com alguém. Agora, ter de dividir o Digitador é algo que eu não imaginava e que vai além do que eu costumo suportar. Até pouco tempo, os afagos na cabeça, a leitura comigo no colo e as brincadeiras divertidas eram exclusividades minhas. Nos últimos dias, a moça do post anterior tem recebido tratamento parecido. E sem dar de volta nem sequer um abano de rabo. Injusto isso! Ando tão enciumada que prefiro nem citar o nome dela por enquanto. Tô trabalhando a questão internamente e tentando me adaptar.

Mas, pode ficar tranqüila(o). Como toda boa fêmea, consigo dar uma mascarada nos meus sentimentos. Toda vez que a moça entra no nosso apartamento, dou a ela uma recepção digna de rainha. Pulo, lambo e corro. No começo, ela parecia um tanto intimidada por esse meu jeito dado de ser. Depois, fomos nos acertando.

Num bate-papo dela com o Digitador, fiquei sabendo que ela prefere gatos. Como assim? Será que ela não gosta dessa festa toda ao chegar em casa? Prefere a indiferença felina? Tudo bem, já ouvi várias histórias de bichanos gente fina. Mas sempre que alguém fala de um gato assim diz que ele é tão simpático que até parece cachorro. Assim, pergunto: pra que ficar com o genérico se você pode ter o original?

Apesar disso, a moça parece gostar de brincar. E ela tem um jeito diferente de me tratar. Adora ensinar truques. E, na minha política da boa vizinhança, aprendo tudo rapidinho sem reclamar. Outro dia, ela me ensinou a sentar. Depois, pegou uma cordinha que o Digitador havia me dado de presente e me mostrou o ponto certo para abocanhá-la. E ficamos brincando de leva-e-traz com a coisa.

Ela faz tudo com muita delicadeza, sem subir o tom de voz. É disciplinadora como o cara que divide o apê comigo, mas sem aquele vozeirão que às vezes me mete medo e acelera meus batimentos cardíacos.

Tudo lindo. Só tem um problema: na hora em que as brincadeiras e os truques começam a ficar legais, lá vem o Digitador, todo babão, pegar o meu novo brinquedo. E, quando ele começa a fazer nela os afagos que eram só meus, fico sobrando. Pulo sobre os dois, mas sou tratada como um ser inconveniente. Sou empurrada, recebo ordens e, quando a paciência dele está por um fio, ouço um “dá um tempo, Clê”. Lembra muito as vezes em que fico saltando na perna do cara quando ele tenta colocar as meias. Só que sem a graça de deixar o sujeito na eminência de um tombo.

Bom, noves fora, agora tenho um problema matemático para a resolver. Por um lado, a soma de mais uma pessoa em casa amplia as possibilidades de diversão. Por outro, continuo incomodada com a divisão do Digitador. O resultado dessa conta eu vou relatando nos próximos posts. Torça por mim.

Um beijinho,
Clê
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11/03/2008
2/3/08 – O primeiro susto

Exceto pela chegada da moça na nossa casa, tudo parecia normal naquela manhã de domingo. A coisa começou a mudar quando o telefone tocou por volta das 10h. Pela animada saudação, deu para notar que, do outro lado da linha, estava a Doris, irmã do Digitador. Mas a animação durou pouco. A voz do cara ficou cada vez mais baixa, e ele terminou a ligação dizendo “tô indo praí”.

Apesar do tom de voz sombrio, fiquei animada com a possibilidade de rever meus “priminhos”. Ah, e também adoro a recepção da Doris. Ela me abraça e fala um monte de coisa bonitinha. E eu fico olhando para a Bellinha com um ar de superioridade, como se dissesse: “Quem é a rainha do pedaço aqui?”.

Depois de desligar o telefone, o Digitador preparou o café da manhã, chamou a moça e, estranhamente, não pegou o jornal. Já sentado com ela à mesa, começou a relatar o conteúdo da ligação. Vou reproduzir um trecho inteiro, pois o discurso foi recheado de palavras e siglas das quais eu não tenho a menor idéia do significado.

Com a palavra, o cara: “Meu pai acabou de ter um AVC, um derrame. Minha irmã disse que ele está na UTI do hospital, completamente inconsciente e em estado crítico. Meu Deus, a imagem que eu tenho do meu pai é a de um homem forte. E agora, com 84 anos, ele tá tão fraquinho”.

Foi a primeira vez que vi o Digitador chorar. Como não entendi muita coisa do que ele disse para a moça, imaginei que alguém iria deixá-lo trancado na área de serviço. Isso sim é razão para choro.

Terminado o café, nos arrumamos e rumamos para o ABC (percebeu o uso inteligente dos verbos “arrumar” e “rumar”?). No meio do caminho, outro telefonema. E mais uma vez o Digitador desligou e falou em tom grave para a moça: “Minha irmã disse que, se eu quiser ver meu pai ainda respirando, tenho de me apressar”.

E põe pressa nisso. O Digitador me deixou de mala e cuia na casa da Doris, mal se despediu e desapareceu. Da minha parte, olhei para os lados e lá estavam a Belinha e o Polan. Não tivemos dúvidas: em menos de 20 segundos demos início a uma interminável sessão de correrias, mordicadas e provocações.

Passaram-se umas quatro horas até que o Digitador, a moça e a Doris voltassem pra casa. Todos pareciam bem mais animados. Tanto que brincaram com a gente e almoçaram alegremente. Também falaram com muita gente ao telefone. E as frases que mais ouvi foram “foi um susto” e “ele escapa dessa”. Tomara que sim. Prefiro ver o Digitador sorrindo.

Uma arfada,
Clê
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Não tenho nada a ver com a escolha do meu nome, mas poderia ter sido pior. Minha mãe se chama Shakira Son of Man, e meu pai, Tedy de Larissa Bright. É mole? Bom, vamos aos fatos: sou uma cadelinha da raça pug, superbrincalhona e (modéstia às favas) simpática. Nasci no dia 12 de setembro de 2007. Entre essa data e 9 de janeiro de 2008 - dia em que passei a dividir apê com um cara que pensa que é meu dono e que digita as minhas idéias -, pouca coisa aconteceu. Por isso, conto a minha vida a partir de então. Antes de começar, um aviso (especialmente dirigido ao cara acima, que passo a chamar de Digitador): eu não estou aqui para curar a carência de ninguém. Como diz a letra do único funk carioca que presta, o que eu quero é ser feliz!

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27/02/2008 - 13/03/2008
12/02/2008 - 27/02/2008
 
- Blog da Galileu