13/03/2008
4/3/08 – Agora quem dá a bola...

Se há uma coisa que acho divertida desde o primeiro dia que vim pra cá, é ver TV. Não que eu fique hipnotizada diante do aparelho. Mas adoro morder minhas cordinhas e alternar isso com olhadas na tela. Isso me mantém entretida, pois, nas poucas vezes em que o televisor é ligado, o Digitador afunda no sofá e se esquece de mim.

Quer dizer, ele não chega a afundar. Fica sentado na ponta do móvel, à beira de um ataque de nervos e falando palavras que, moça fina que sou, recuso-me a reproduzir neste espaço. Na telinha da TV, 22 homens ficam mandando uma bolinha branca pra lá e pra cá. É tudo muito previsível. Quando a bolinha se aproxima do gol do time de branco [nota do Digitador: sim, torço para o Santos], o cara começa a falar “sai, sai, sai” ou “tira, tira, tira”. Quando ocorre o inverso, ele passa a dizer “vai, vai, vai” ou, um pouco mais violentamente, “chuta, #@$#@¨&”.

Não entendo muito bem um fenômeno que acontece com o Digitador. Ele liga a TV para ver jogos no meio e nos finais de semana. Nestes últimos, ele assiste à partida de maneira relaxada, geralmente tomando alguma coisa e, se bobear, rola até um carinho na minha nuca. Nos de meio de semana, o cara vira um pitbul. Grita, pula, soca o ar. Só falta espumar e sair triturando criancinhas por aí.

Como boa parte das fêmeas, tive certa dificuldade para entrar em sintonia com os sentimentos que esse tipo de jogo é capaz de despertar. Nas primeiras vezes em que vi o Digitador agonizando na frente da TV, achei aquilo ridículo. Depois, cheguei a achar engraçado e a sentir dó. Hoje, me solidarizo com ele e acabo torcendo para que a bolinha nunca entre no gol do time de branco e que se aninhe com freqüência na meta do adversário. O que aconteceu nessa terça-feira me ajuda a explicar o porquê dessa minha decisão.

Era dia de jogo de uma tal de Libertadores. O time de branco estava enfrentando uma equipe mexicana que, me informa o Digitador, tem o mesmo nome de uma marca de uísque. A partida começou nervosa – pelo menos no nosso quartinho de TV. Em alguns momentos, o cara chegou a se levantar do sofá e a soltar um “não, não, não” desesperado e patético.

Mas, antes dos 20 primeiros minutos de jogo, a voz no aparelho começou a aumentar, o Digitador se levantou do sofá e, no tempo de uma lambidinha, uma festa explodiu no quartinho. A bola tinha acabado de entrar no gol do outro time. E, sempre que isso acontece, um ritual tem início. Primeiro, o cara grita “goooool”. Depois, invariavelmente, berra “tá láááá”. Aí, ele revê, revê e revê o lance. Quando isso termina, é aí que a diversão começa de fato.

Ele se vira pra mim e diz: “Vamos lá, Clê, dancinha do gol do Peixe”. E passa a imitar uma dança da chuva comigo pulando feito louca no pé dele. E isso não é tudo: às vezes – como ocorreu nessa terça –, ele me abraça e diz que eu dou sorte pra ele. Não me animo muito com isso, pois, quando a bola entra no gol do time de branco, ele vira pra mim e solta: “Pô, Clê, você é a maior pé-frio!”. Depois, a irracional da casa sou eu!!!

Bom, terminou o jogo, o time de branco venceu, e o cara ficou muito animado. Tanto que até me levou para uma voltinha na rua tarde da noite, que é o horário em que mais gosto de passear. Assim, pergunto: dá para eu torcer por outro time?

É nóis,
Clê
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17/03/2008
8/3/08 – Meu dia de Esther Williams



Abro este post com o meu primeiro “erramos”. Na verdade, é o meu primeiro “ele errou”, pois, como você vai ler, o equívoco não se deve às idéias que passo adiante para serem datilografadas, mas sim a uma apuração malfeita pelo Digitador. Há muitos posts atrás, você conheceu um casal identificado como “da Granja”. Isso se deve ao fato de o cara achar que todo mundo que vive perto da rodovia Raposo Tavares mora na Granja Viana. Mas a Lilyan e o Fernando têm uma casa muito gostosa num lugar chamado Vargem Grande Paulista.

E foi pra lá que a gente rumou nesse sábado. O plano original era irmos mais uma vez à praça Benedito Calixto, mas, como o tempo não estava muito amistoso, fomos convidados pela Lilyan para visitar o labrador Johnny e os outros quatro cães que vivem com ele.

A chegada foi meio traumática. O casal não estava em casa, e ficamos na frente do portão, enquanto a cachorrada latia freneticamente do lado de dentro. Cansado daquela gritaria, o Digitador resolveu dar uma volta comigo pelo condomínio. E, de todas as casas com cães, partiam latidos sempre que passávamos diante delas. Que povo invejoso! Só porque estão presos enquanto eu passeio, fazem esse escarcéu todo.

Finalmente, a Lilyan e o Fernando chegaram. E foi uma festa. Entrei na casa nos braços da mulher, enquanto o Digitador e o Fernando já foram até a geladeira atrás das primeiras de uma série interminável de cervejas. Depois de muito investigar o novo terreno, rever o Johnny e conhecer os novos amigos, a calma voltou a reinar na casa.

Enquanto os humanos bebiam e os caninos descansavam, fui me aventurar por uma varanda muito legal. Do lado esquerdo, havia uma estátua toda rodeada de vegetação verdinha. Resolvi explorar aquele terreno. Coloquei a primeira patinha e percebi que o piso ali era mais mole que o habitual. Não tive tempo de dar a ré e afundei de quatro patas naquele trecho pantanoso.

Passaram-se uns belos três minutos até que a Lilyan (sempre ela) desse pela minha falta. Logo ouvi os passos pesados (e acelerados) do Digitador na direção da varanda. Ele me viu mergulhada na coisa, mas, em vez de ajudar uma dama a sair de uma situação desconfortável, ele virou para os donos da casa e gritou: “Peraí que vou pegar a minha câmera!”. Eu tava congelando ali dentro. E, pior, tinha uns peixinhos ali dentro que insistiam em me importunar.

O flash da câmera do Digitador espocou umas três vezes e, finalmente, a Lilyan apareceu com uma toalha redentora e me deu um banho quentinho. Voltei cheirosa e cheia de disposição para continuar as brincadeiras. E foi o que aconteceu até a noite.

Por falar em noite, essa foi a primeira em que descobri o que é um céu estrelado. Passei a torcer para que um dia eu passe a dividir um lugar como aquele com o Digitador. Claro que ele pode dispensar a varanda com plantas aquáticas e peixinhos inconvenientes.

Glub, glub,
Clê
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20/03/2008
Pausa para respirar

Com a velha desculpa do tal de fechamento, o Digitador diz que está sem muito tempo para colocar as minhas idéias no ar. Só para não deixar a coisa parada por essas bandas, aproveito para apresentar a moça que, apesar de infernizar a minha vida com aquele maldito termômetro, é gente boa.
Ladies and gentlemen, boys and girls, com vocês, a doutora Analice.



Beijinho,
Clê
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25/03/2008
15/3/08 - Gente sem noção



Não sou das cachorras mais exibidas. Nem preciso. Nos meus passeios com o Digitador, a minha simples presença já é o suficiente para despertar um monte de "olha, que bonitinha!" ou "não é o cachorrinho do MIB?". Digo isso para deixar claro que não sou muito fã dos animais que desfilam por aí com roupas de super-herói, bailarina ou empregada doméstica. Um detalhezinho ou outro, tipo um lacinho ou uma bandana, está liberado. Mais que isso faz crescer em mim uma vontade incontrolável de cravar meus dentinhos na jugular de quem tenta colocar uma roupinha dessas sobre o meu corpinho.

E foi exatamente isso que me aconteceu. Conforme o tempo vai passando, vou conhecendo toda a família do Digitador. Não há como negar, eles amam cães. Só que às vezes eles exageram na dose. Parecem ignorar que a gente precisa apenas de alguns passeios, ração, água, carinho e muitas brincadeiras. Se quiser oferecer mais que isso, seria interessante que nos consultassem antes.

Pois bem, nesse sábado fui apresentada à Suely (outra irmã do Digitador) e ao filho dela, o Douglas. Como de praxe, rolou o ritual das vozes em falsete, os carinhos e frases do tipo "quero ela pra mim" ou "ela gosta mais de mim do que de você". Terminado isso, começou uma brincadeira de que gostei muito. O Douglas tem quase 2 metros de altura. Ficou deitado no chão e me diverti explorando aquele parque temático de carne e osso. Às vezes, com suas mãos gigantes, ele me levantava no espaço e me ajudava a desafiar a gravidade.

Quando a brincadeira estava ficando boa, a Suely ofereceu um embrulho ao Digitador. De dentro dele, saiu o vestidinho que você vê na foto acima. Como eram três humanos contra uma indefesa cadelinha, eles conseguiram me conter e me enfiaram aquela coisa. Passaram a rir incontrolavelmente. Eu não achei graça nenhuma. Fiquei me sentindo uma coadjuvante de quadrilha de festa junina. Até temi que, para deixar o figurino ainda mais fiel, esse bando de loucos resolvesse arrancar um dente meu e pintar bolinhas nas minhas bochechas.

Para felicidade geral da nação, desfilei um pouco pela sala com aquela indumentária. O elástico comprimia a minha barriguinha, a barra impedia o livre movimentar do meu rabo em forma de saca-rolhas (um dos meus maiores charmes), e o tecido que cobria o meu lombo proporcionava um calor desagradável.

Depois que as visitas se foram, o Digitador percebeu o meu desconforto, mas, antes de tirar a peça, ele me levou diante do espelho do banheiro. Até eu achei engraçada a coisa. Enquanto afrouxava os elásticos, ele disse que aquela roupa só seria utilizada em ocasiões especiais. Eu não faço a menor idéia do que isso signifique, mas torço para que essas ocasiões não sejam muito freqüentes.

Smack,
Clê
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26/03/2008
20/3/08 – Hora do balanço

Outro dia, pedi para o Digitador reler em voz alta as minhas bem ditadas linhas. Notei que deixei alguns fios soltos. Histórias que comecei e não contei o final ou, pelo menos, não disse em que pé estão. Assim, aproveito essa noite de pré-feriado para atualizar as minhas leitoras e leitores a respeito de dois episódios que rolaram na nossa casa.

Lembra da doença do pai do Digitador? Ele não fala muito a respeito, mas tenho notado que o número de telefonemas em casa tem diminuído. E, quando eles acontecem, o cara atende ao telefone sem franzir a testa. E continua brincando ou fazendo carinho nesta que vos fala.

Há mais um indício de que as coisas devem estar bem com o velho. Ultimamente, todas as vezes que temos ido ao ABC Paulista tem sido para encontros felizes e animados, em que vejo aquele monte de humanos com cara parecida e passo um tempão brincando com os meus priminhos caninos.

Torço para que o homem saia logo do hospital, pois tenho uma ou duas reclamações a respeito de como o filho dele vem me tratando...

Por falar no comportamento do Digitador, retomo agora a história daquela moça bonita que passou a ser presença freqüente na nossa casa. Nas semanas que seguiram a entrada dela na nossa vida, muita coisa mudou em casa. A principal mudança se deu nas noites, quando o seguinte ritual se repetia: o Digitador chegava com ela a tiracolo, brincava comigo rapidamente, colocava um calção, pegava a moça de novo, saía para a rua e voltava cerca de uma hora depois, completamente suado e com aquela permanente cara de bobo que só os apaixonados (por cães ou seres do sexo oposto) têm.

Eu ficava indignada. Como assim? E os meus passeios? Eram dois por dia e tiveram uma queda de 50%. Sabia que essa história de dividir o cara não iria ser legal.

Bom, mas o tempo foi passando, a presença da moça começou a diminuir, e os meus passeios voltaram à média que eu gosto, aprovo e mereço. Outra coisa que notei é que as garrafas com líquido dourado que ficam sobre o bufê da sala passaram a perder conteúdo em tempo recorde.

Ainda não entendi direito o que aconteceu, mas estou feliz por ter meus passeios de volta. Embora reconheça que tenho saudades das brincadeiras que a moça fazia comigo. Ah, e sinto falta de outra coisa: é divertido ver o Digitador com cara de bobo.

Ufa,
Clê
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28/03/2008
22/3/08 – Tudo por dinheiro





Aos poucos, vou descobrindo que tem pessoas que ocupam gavetinhas específicas e especiais na minha memória (tanto a afetiva quanto a olfativa). Lembra da Dani e da Bianca, aquela dupla de mãe e filha de muitos posts atrás? Para mim, elas estão catalogadas na pasta de “pioneiras”. Isso porque foram as primeiras visitas que recebi no apartamento que divido com o Digitador. E, nesse sábado, estiveram presentes a outro acontecimento inédito na minha vida: a minha primeira ida a um shopping center.

Fomos ao Villa-Lobos. No começo, achei que era uma roubada, pois passamos uns cinco minutos esperando mãe e filha num estacionamento muito parecido com aquele do prédio onde moramos. Mas, depois que elas chegaram, a festa começou. Primeiro pela alegria de revê-las e receber os afagos variados que elas me dão. Depois, pelo mundo que se revelou desde a hora em que saímos do estacionamento e passamos por uma porta que se abriu sozinha (isso também eu nunca tinha visto; como queria ter uma dessas na nossa área de serviço...).

Já no colo da Bianca, embarcamos numa escada que também sobe sozinha. Comecei a me perguntar por que a gente não tinha nada disso em casa. Mas, ao ver aquele monte de loja, luzes, crianças e outros cães (poucos, é verdade), um outro questionamento me afligia muito mais: por que o Digitador não me trouxe a um lugar como esse antes? [Ao ouvir eu ditar isso, ele se apressou em dizer que nem todo shopping aceita cães.]

Ridículo. Qual seria a razão? Sujeira? Pois, durante o nosso passeio, vi criança deixar sorvete cair no chão, gente jogando cigarro no piso do estacionamento e uns caras que deixavam o banheiro com as mãos sequinhas. Seria preciso abastecer uma matilha com quilos de Fibraxx para que nós, caninos, fizéssemos coisas tão desagradáveis. Mas, enfim...

Entrei em várias lojas e adorei o jeito com que fui recebida. Muitas vendedoras se inclinaram para acariciar a minha cabeça e fazer brincadeiras. [O Digitador pede a palavra mais uma vez para alertar que isso podia ser apenas uma técnica para que a gente gastasse bastante na loja; preferi deixar esse comentário pra lá, pois tenho fé de que exista gente boa pra cachorro].

Numa dessas lojas, a Bianca escolheu uma bolsa linda, na cor lilás e feita em um tecido que deve ser muito bom de morder. Mas, como o lugar era chique e a peça deve ter custado os tubos, mantive o meu maxilar sob controle. Outro lugar que adorei foi um que vendia bichos que, soube depois, eram de pelúcia e não iriam brincar comigo. Vi também um estabelecimento com cães engaiolados do mesmo jeito que eu ficava nos meus primeiros dias. Tive dó e gostaria de levá-los pra casa.

Várias lojas e muitas folhas de cheque depois, voltamos ao estacionamento e partimos para o meu passeio favorito. Falo sobre ele no próximo post. E você vai adorar, pois vou dar mais uma dica a respeito da origem do meu nome.

Um real,
Clê
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Não tenho nada a ver com a escolha do meu nome, mas poderia ter sido pior. Minha mãe se chama Shakira Son of Man, e meu pai, Tedy de Larissa Bright. É mole? Bom, vamos aos fatos: sou uma cadelinha da raça pug, superbrincalhona e (modéstia às favas) simpática. Nasci no dia 12 de setembro de 2007. Entre essa data e 9 de janeiro de 2008 - dia em que passei a dividir apê com um cara que pensa que é meu dono e que digita as minhas idéias -, pouca coisa aconteceu. Por isso, conto a minha vida a partir de então. Antes de começar, um aviso (especialmente dirigido ao cara acima, que passo a chamar de Digitador): eu não estou aqui para curar a carência de ninguém. Como diz a letra do único funk carioca que presta, o que eu quero é ser feliz!

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