Não tô gostando nada dessa história. As desculpas vão se acumulando (doença do pai, fechamento da revista, tratamento dentário, encontros com gente querida, jogos do Santos etc.). O certo é que os meus passeios e as horas rolando no chão da sala sofreram uma sensível diminuição na semana que passou.
Eu dou todas as dicas que o Digitador precisa para entender que essa situação não me agrada nem um pouco. Detono com muito mais voracidade e velocidade as cadeiras da cozinha, embaço mais para voltar ao meu cantinho na hora em que ele sai para o trabalho, minhas mordiscadas de brincadeira ficam um pouco menos “de brincadeira”. Resultado: embora eu esteja a alguns meses de saber o que é uma TPM, meu humor anda do cão.
Ele tenta desviar a minha atenção com novos ossinhos, permissões para que eu durma no chão do quarto dele naquelas sonecas nas tardes de final de semana, além de passeios que não duram mais de meia hora. E, pior, tudo na maior correria. Não dá tempo de eu ficar cheirando traços de outros cães nas jardineiras das calçadas nem de confraternizar com meus irmãos de pêlo.
Já estou até vendo a coisa no futuro: eu passando por várias sessões de terapia para trabalhar esse problema. Bom, mas não tô nem aí. Se eu tiver de encarar essa barra, quem terá de pagar a conta será ele mesmo. E, até onde eu sei, o SUS não atende cadelinhas charmosas à beira de um ataque de nervos.
Mas eu nem sou louca de esperar esse dia. Não estou disposta a esperar o sujeito se reaprumar. Se o meu tratamento de princesa não voltar até o final desta semana, lanço aqui neste espaço a campanha “Adote a Clementina” e vou me entregar para o primeiro humano que me der a atenção de que me julgo merecedora.
Tá vendo? Foi só eu prensar o homem contra a parede para que os meus desejos e necessidades começassem a ser atendidos. Ainda não de maneira plena e completa. Afinal, sou uma moça fina e que aprecia a qualidade, mas não abro mão da quantidade.
Como sempre, nessas semanas de fechamento, o Digitador chegou em casa por volta da meia-noite. Mas, em vez de largar a bolsa e jogar o corpanzil no sofá, ele ficou dizendo um monte de coisas bonitinhas, me convidando para brincar.
E rolou aquela rolação pelo chão da sala. Com um ossinho fake na boca, eu corria e pulava sobre as pernas do cara, que fingia tentar me pegar. Depois, meu passatempo predileto: passamos algumas dezenas de minutos simulando lutinhas no chão. Eu soltando as minhas mordiscadas, e o Digitador usando as mãos para controlar a minha “fúria”.
Adoro sobretudo as frases que ele solta com a voz rouca e empostada: “Estou sendo atacado por um cão indomável, um animal completamente fora de si! Que só pode ser controlado com um dardo tranqüilizante”.
E, assim, uma hora se passou.
Depois, sempre rola o momento carinhoso. O Digitador me segura pelas axilas e fica me chamando de “meu bebê”. Não consigo resistir a tanta fofura e acabo bocejando. E um cansaçozinho bom tomou conta de mim.
Outro dia, aqui neste nobilíssimo espaço, coloquei o vídeo de um gato sendo muito escroto com um pug faminto. Como recebi protestos, resolvi pesquisar mais e encontrei o vídeo abaixo. Agora, pergunto: amantes dos felinos, vamos fazer as pazes?
Além de afeto, carinho, diversão e momentos agradáveis, os exemplares da minha espécie andam inspirando artistas. Dê uma clicada neste link e descubra um mundo de pôsteres, camisetas e presentes inspirados no mais belo animal que a evolução foi capaz de gerar (sim, sou darwinista; sorry, criacionistas).
No post anterior, falei que era darwinista, o que significa que acredito piamente na Teoria da Evolução. Descobertas recentes sobre a evolução dos pugs me deixam ainda mais certa disso. A imagem abaixo não deixa dúvidas.
Tem vezes que eu até gosto quando o Digitador volta tarde demais do trabalho. Ele chega todo cheio de culpa e acaba brincando comigo mais do que o normal e permitindo estripulias que, em outros dias, não tenho a menor chance de colocar em prática.
Assim foi ontem. O cara chegou do trabalho – e deve ser verdade, pois nenhum cheiro nele indicava uma noite na balada – por volta das 3 da manhã. Jogou a bolsa no sofá e deu início ao festival de frases engraçadas, rolagens no chão e simulações de lutinhas. Tudo foi tão intenso que ele não demorou muito para começar a bocejar. Confesso que eu também estava um tantinho cansada.
Ele se levantou e foi para o banho. Pensei: “Pronto, quando ele sair daí, serei enviada de volta ao meu cantinho, onde terei de passar pelo menos seis horas esperando pela próxima bateria de brincadeiras. Mas, nesse dia, a coisa foi diferente.
Depois de se vestir, o Digitador se dirigiu para o quarto. Fiquei pulando em volta dele, mas o cara disse “boa noite, meu bebê” e foi logo deitando. Quando isso acontece, adoro, pois fico em pé ao lado da cama e com a minha cara a centímetros da do Digitador. É bom sentir o cheiro da respiração dele com cheiro de creme dental. O problema é que, às vezes, eu deixo escapar um espirrozinho. E ele fica meio bravo, mas passa logo.
O cara pegou no sono, e eu fiquei brincando um pouco em vários cantos da casa até me render e dormir também.
O dia amanheceu e, depois dos cumprimentos de praxe, o Digitador começou a desfilar pela casa. De repente, ele parou diante do tapete na divisa entre a cozinha e a sala e passou a gritar comigo. Na hora, eu saquei o que era e me refugiei no quarto. Mas eu não tinha muito para onde fugir. Ele me pegou no colo, meu coração estava a milhão. Colocando o meu nariz bem perto do montinho de cocô (desculpe o termo), ele repetiu várias vezes: “Não, não e não”. E me deixou de castigo por meia hora.
Passado esse tempo, ele me resgatou do cativeiro e começou a falar: “Pô, Clê, eu já falei que esse tipo de coisa não se faz aí. Eu entendo você: vi num livro que fazer cocô no lugar errado é sinônimo de tristeza. Mas imagine se eu saísse fazendo isso por aí toda vez em que ficasse triste”.
Ouvi pacientemente aquela ladainha toda e não reagi. Afinal, eu queria pôr fim àquela história e começar logo a brincar de novo. Mas ele não brincou. Em vez disso, foi para o trabalho mal me dirigindo a palavra.
Não gostei nada dessa história. Por que ele ficou tão bravo? Só porque eu não consigo alcançar aquela peça que fica dentro do banheiro que ele utiliza para o mesmo fim? Bem, em todo caso, vou voltar para o jornal, pois, a experiência mostra, despejar o resultado da minha ração ali não representa problema nenhum. Ai, se bem que ter feito no tapete foi uma delícia...
É isso aí, Clê também é cultura! Como este blog, o livro acima é narrado por um pug, o Elvis. Ele mora num apartamento em Manhattan com três amigos (Bert, Buddha e Busta). Exceto pelo fato de viverem numa pequena matilha, nossas histórias são muito parecidas. Como eu, eles aprendem a extrair o que há de melhor nos pequenos prazeres da vida. Um passeio na praça, uma pequena viagem de carro, uma ida à pet shop. Enfim, mesmo as coisas mais cotidianas podem ser fascinantes, desde que você tenha uma jeito pug de ver e viver a vida. É essa a terapia a que se refere o título da obra. Se você quer ser mais feliz e sabe ler em inglês, encomende o livro aqui.
Bem que eu tava achando estranho. Já fazia um tempo que o meu corpinho não sentia o contato de água, xampu, toalha e jato de ar quente. Não que eu faça muita questão disso. O problema é que, fresco como ele só, o Digitador me pega menos no colo quando o meu cheirinho está mais, digamos, canino.
Por isso fiquei animada ao saber que iria passar por esse ritual. Quer dizer, feliz numas. Como ditei em um post anterior, o estabelecimento para o qual sou levada para o meu banho é o mesmo em que fica aquela veterinária simpática, mas que não faz muita cerimônia em usar os seus termômetros invasivos. Como pensei que iria passar por ela, estanquei na porta de entrada e fui levada a contragosto para dentro da casa.
Só fiquei aliviada quando vi que a gente não estava indo para a área de consultas. Como sempre, os dois rapazes que trabalham no lava-rápido de cachorro nos recebeu com muita festa. Fizeram carinho no meu cangote, cumprimentaram o Digitador e continuaram brincando com os outros dois bichos que estavam recebendo um merecido trato.
Quando eu estava começando a me animar com essa recepção toda, veio a ducha de água fria: em vez de já ir para o banhinho, fui enjaulada. Isso mesmo, trancafiada num cubículo que tinha apenas uma toalha dentro. Sem cumbuquinha de comida, sem reservatório de água, nada. O papo que o Digitador teve com os meninos me deixou ainda mais amedrontada: “Ela vai ficar pronta dentro de umas duas horas”, disse um dos rapazes. “Legal, tenho umas coisas pra resolver nesse meio tempo”, respondeu o cara que divide o apê comigo.
Como assim? Isso significaria que, por pelo menos 180 minutos, eu iria ter os meus momentos de Abadia e Beira-Mar. Que crime eu cometi? Bom, esse tipo de pensamento tomou conta de mim até o momento em que um dos meninos abriu a jaula, me segurou pelas axilas e começou a me banhar com água quentinha. Só o deus dos cães sabe o quanto gosto disso. Vejo alguns dos meus companheiros espernearem, latirem ou ficarem contrariados quando passam pelo processo. Eu, por outro lado, encararia umas boas três horas nesse tipo de tratamento, sem chiar.
O problema é que esse carinho profissional dura bem menos que isso. Em cerca de 20 minutos eu já estava sequinha e cheirando a talco. Aí, começou aquela chatice de ficar atrás das grades vendo um monte de cachorro desfilando na minha frente. Ah, e esperando o Digitador voltar para me recolher. E, mais uma vez, só o deus dos cães sabe o quanto eu detesto esperar.
Bom, mas finalmente o cara chegou. Eu estava furiosa e não fiz o menor esforço para esconder isso. A foto acima não deixa a menor dúvida a esse respeito. Fui tirada da jaula, colocada no carro e rumamos para casa. Entrei com cara de poucos amigos. Até porque eu estava tremendamente apertada. Fui para o meu cantinho, escolhi um canto com foto do jornal e mandei ver. Só então me acalmei um pouco.
Terminada a obra, o Digitador se apressou em me pegar no colo e ficou falando: “Meu bebê tá cheiloso [assim mesmo, com esse erro infantil]”. Meu humor foi voltando e passamos umas boas horas rolando pela sala, mordendo brinquedos e dando saltos (claro que estes dois últimos itens se restringem à minha pessoa). Foi muito divertido e me cansei o suficiente para, por conta própria, ir para o meu cantinho dormir feliz
Tudo bem, os fins justificam os meios, mas será que não dava para ter uma noite deliciosa (e cheirosa) como essa sem ter de passar um tempo atrás das grades? Até porque, se eu me irritar demais com essa história, vou pôr fogo no colchão e subir no telhado!!!
Minha querida leitora, meu querido leitor, lembra da Lilyan, aquela moça que eu e o Digitador conhecemos na feirinha da Benedito Calixto? Pois bem, como eu havia ditado, a mulher adora animais, os cães em especial, tanto que mora com cinco de nós. Toda vez que ela recebe alguma mensagem com animais, repassa voando para o cara que divide o apê comigo. E foi isso o que ela fez hoje. O texto da Lilyan dizia algo sobre o tamanho do abraço que ela mandava para o Digitador.
Mas isso é o que menos importa. Legal mesmo é a seqüência de imagens abaixo. Ela escancara uma verdade que não dá para questionar: pitbulls e outros bichos neuróticos à parte, somos os melhores amigos do homem. E isso começa bem cedo.
Diferentemente dos humanos de São Paulo, adoro o rodízio de veículos. Como o final da placa do carro do Digitador é 0, ele não tem como circular até as 10 da manhã. O que isso significa? Passeio na certa. E hoje foi assim.
Logo que ouvi os passos lentos vindos do corredor pela manhã, postei-me diante da porta. Ela se abriu e vi o Digitador com a cara amassada, o cabelo em desaprumo e roupas pouco recomendáveis para sair à rua. Depois da troca de carícias matinais (por falar nelas, tenho me excedido; pulo nas pernas do homem, e ele tem se queixado do tamanho das minhas unhas), rolou aquele ritual de café da manhã + jornal.
Esperei tranqüila, roendo um ossinho. De repente, a surpresa. Com a minha coleira vermelha nas mãos, ele falou: “Bebê, vamos passear?”. Fico tão feliz com essa frase que já vou de cabeça baixa pra cima dele, com o intuito de facilitar a colocação da coleira. Pegamos o elevador e vagamos por calçadas, ruas, subidas e descidas. Hoje fizemos um caminho diferente e não passamos pela feira livre.
Fora isso, tudo estava em seu lugar: os cheiros dos bichos nas floreiras, os cumprimentos trocados com outros donos de cachorros e uma ou outra pessoa que pedia autorização para fazer cafuné na minha cabeça. Até aí nada de muito especial.
Ao voltarmos pra casa, o dia ganhou o seu toque diferenciado. Como sempre, entrei esbaforida e fui logo secando metade da minha cuia de água. O Digitador ficou lendo mais um pouco na mesa da cozinha. Munida de todo o meu charme e carinha do Gato de Botas, fiquei em pé e apoiei as minhas patas dianteiras na coxa dele.
Como previsto, ele não resistiu e me pegou no colo. Fui me aninhando e terminei com o meu queixo apoiado no peito do cara. E aí comecei a sentir o baticum do coração dele. Pra mim, essa é a trilha sonora ideal para embalar uma sonequinha. E foi o que acabou acontecendo. Dormi com a respiração profunda.
Nessas circunstâncias, o Digitador tem dó de me acordar. Fiquei uns bons 45 minutos dormindo desse jeito. Mas chegou uma hora em que não teve jeito. “Clê, me perdoe, mas já to atrasadão para o trabalho”, disse ele. Desci do colo contrariada. Aí, ele foi tomar banho, trocar de roupa e, pouco antes de sair, me pediu um favor simples: ditar o parágrafo abaixo. Então, lá vai.
Atenção, chefe do Digitador. Tente não ficar nervoso com o atraso dele hoje. Você há de concordar que foi por uma causa nobre.
Cumprido o dever, um último comentário sobre o prazer. Ai, que bom seria se todas as manhãs fossem assim...
Não tenho nada a ver com a escolha do meu nome, mas poderia ter sido pior. Minha mãe se chama Shakira Son of Man, e meu pai, Tedy de Larissa Bright. É mole? Bom, vamos aos fatos: sou uma cadelinha da raça pug, superbrincalhona e (modéstia às favas) simpática. Nasci no dia 12 de setembro de 2007. Entre essa data e 9 de janeiro de 2008 - dia em que passei a dividir apê com um cara que pensa que é meu dono e que digita as minhas idéias -, pouca coisa aconteceu. Por isso, conto a minha vida a partir de então. Antes de começar, um aviso (especialmente dirigido ao cara acima, que passo a chamar de Digitador): eu não estou aqui para curar a carência de ninguém. Como diz a letra do único funk carioca que presta, o que eu quero é ser feliz!